A4 Mãos
   Doçura

Minha irmã Cinderela me deu chocolates
Ela é tão boa que não fez isso pra me ver mais gorda e feia
E tanta doçura me irrita tanto
Que tenho vontade de lhe cortar as maças do rosto
Assim como me cortei os dedos
Dos dois pés
Pra caber no sapato
Que não sabia esquerdo
ou direito
Mas que era mesmo

O outro


Cristina Maria de Medeiros,
21 de Agosto de 2006


Escrito por Cristina às 00h09
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Amor

 

Alice gosta de dormir na posição caracol

Enroscada em si mesma.

É que assim se defende de sonhar com lagartas

Daquelas que espinham

(puro veneno!)

 

E de passar sob as árvores

Carregadas de cerejas

 

E de lagartas...

 

Que não dão fios de seda

(puro veneno!)

 

 

Cristina Medeiros,

05 de junho de 2006



Escrito por Cristina às 03h30
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Turbilhão

 

 

E ainda por cima fazem aquelas perguntas cruéis... gente que eu não vejo há séculos ressurge das cinzas pra perguntar como eu estou. Sim, eles começam singelos. No começo eu nem desconfio. Respondo que vou bem, na esperança de que não insistam. Mas eles logo querem saber como é esse tal de bem, como se chama de verdade, que cor, cheiro e gosto ele tem. E não se contentam, até que eu acabo mostrando sua cara decrépita e meio apagada. O meu bem, é sempre um bem frágil...

E se não bastasse o inquérito sobre essa Cristina que vos escreve, ainda perguntam de outras. Creio que conheçam as antigas melhor que eu mesma. Sim, porque me confundem. Dizem coisas sobre elas que eu nunca sequer imaginei:

“Mas você gostava tanto de sopa de azul com risos de rinoceronte!”

Eu gostava?!

Alguma das Cristinas já gostou !?

“E a poesia?”, “Tem escrito muito?”,

Pouco? Raso? Morto?

“Você agora vai ser patologista?! Mas não era pra ser psiquiatra?!”

“E os planos pro futuro?”, sim!, porque com certeza a Cristina de hoje tem um monte de planos pra Cristina de amanhã. E com mais certeza ainda a Cristina de amanhã cumprirá religiosamente o traçado da Cristina de ontem. E a Cristina de hoje está muito entusiasmada com os planos e as dimensões todas.

Tento me justificar... porque estou cansada e meu estômago gira na roda gigante. Falo que estou vivendo um período de mudanças. Evoco a palavra turbilhão! Já estou quase escapando! Mas então, um deles, logicamente uma mulher, me segura pelos calcanhares, faz uma pergunta ainda mais doce e desinteressada que todas as outras: “Como vai a senhora sua mãe?”

           

“Como vai?”, “A sua mãe”, “a sua”, “como vai”, “mãe” ?! A pergunta sibila, ressoa, faz eco, estou descomposta, a ponto de romper em lágrimas. “Vai bem!”, a voz quase não sai, “...turbilhão...”  roda gigante, uma vertigem, me segura!, me solta!, fugir!

 

Adoeço, não adulteço.

A mulher me executa:

“Você vive de turbilhões!!!

Esse é um, entre outros dois!”

 

 

 

 

Cristina Maria de Medeiros,

23 de junho de 2006

 

 

Pra Valdeniza e Jorge Pedro



Escrito por Cristina às 02h33
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   Receita do bolo da D. Joaquina

Ingredientes:

· Um copo de açúcar bem cheio
· Um copo de óleo faltando um cadim pra encher
· Um copo de leite
· Quatro ovos
· Dois copos cheios, e um pelo meio, de farinha
· Duas colheres de fermento

Modo de preparo:

Misture tudo e bata à mão
porque liquidificador dá choque.








Escrito por Cristina às 22h56
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   De pano e sonho

Sonhei com uma bruxa... sabe essas bonecas de pano, que na roça se chamam bruxa de trapo...?... e que tem uma tristeza tão delicada nos olhos e na cabeleira despenteada...?...
A bruxa do meu sonho tinha os olhos vermelhos e a boquinha bordada com ponto atrás. E o forro do corpo da boneca estava todo rasgado.
Passei um dia esquisito sabe? pensando na bruxa do meu sonho... acho que ela era eu. Tem um quê de rasgado em mim depois que voltei pra cidade grande... e ando meio de banda com medo de perder as tripas pelo caminho.

Escrito por Cristina às 22h40
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   Se Adélia não tivesse escrito... hoje mesmo eu escreveria

Bairro

Adélia Prado


O rapaz acabou de almoçar e palita os dentes na coberta

o passarinho recisca e joga no cabelo do moço

excremento e casca de alpiste

Eu acho feio palitar os dentes

o rapaz só tem escola primária e fala errado que arranha

mas tem um quadril de homem tão sedutor

que eu fico amando ele perdidamente

Rapaz desses gosta muito de comer ligeiro

bife com arroz

rodela de tomate

e ir ao cinema com aquela cara de invencível fraqueza para os pecados capitais

Me põe tão simples,

íntima

tão à flor da pele o amor

o samba canção

a certeza de que vamos morrer

E como é bom a geladeira

a mala velha

o crucifixo que mamãe lhe deu

o cordão de ouro sobre o frágil peito

que

ele esgravata os dentes

esgravata é meu coração de cadela




Escrito por Cristina às 22h54
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Para Andrea.

 

Há, na vida, hoje, uma certa calma que tiro de mim.

                                       Fábio Morato de Castilho.

 

Por mais amar, não sei falar do amor.

Ele se enraíza de maneira natural.

Como o rio que escova as pedras no fundo

Ou as águas transparentes dos rios

Que não permitem que se veja o fundo,

Justamente por levá-lo sempre para longe.

E o amor tem a profundidade das águas,

Embora mais rápido, e mais calmo.

 

A pedra no fundo do rio vê os pássaros-rio

Voarem no céu, que também é azul.

Vê peixes nadarem nas bolhas das águas.

Vê bichos-rio ao redor, na mata.

Todo verde está úmido,

E está sempre chovendo no fundo do rio.

 

E, apesar disso tudo, a pedra não sabe falar uma palavra sequer sobre o rio:

Acha natural ter a alma deliciosamente encharcada!



Escrito por Fábio Morato de Castilho às 11h29
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Um dia Alice acordou e não era mais uma semente alada. Há muitos anos atrás respondera pra professora de biologia que a semente que voa se chama alacada, e que tem esse nome porque as coisas alacadas vão embora pra muito, muuito longe, onde tudo é diferente do lugar de onde partiram, mas onde elas podem ser elas mesmas. A professora riu sem nenhuma maldade entre os dentes, mas Alice custou pra entender o motivo.



Escrito por Cristina às 22h40
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   Um sonho de Alice

Alice acordou aos prantos

em pânico!

o coração aos saltos

a pele fria e úmida.

Tivera um pesadelo terrível

Sonhara com o homem devorador de doces!

Perguntei a Alice que homem era esse

E ela respondeu que nem sempre ele tinha nome

porque não era sempre que estava vivo

Acrescentou assustada

que a casa dele fica atrás da névoa,

que faz os aviões caírem.

Me disse que ele não é feio,

nem verde

nem repugnante

Que não tem dentes afiados

ou mais que dois metros de altura

“mas devora os doces

de uma maneira assim tão...”

ia erguendo o braço

enquanto movia os dentes

mas estancou

e arregalou muito os olhos

na impossibilidade de concluir o gesto

ou a fala...

 

 

Cristina Maria de Medeiros

Outubro de 2005



Escrito por Cristina às 02h08
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Alice não sabe escrever poemas, mas ficaria imensamente feliz se conseguisse escrever cartas de amor. E que tivessem cheiro de anis...

Em seus sonhos, Alice não se dá ao luxo de sonhar com um príncipe... e seu elegante, embora discreto, cavalo branco. Queria apenas que os pangarés de seus homens não viessem pastar as roseiras, nem derrubar as violetas da janela.

Alice tem desgosto pelos filmes holliwoodianos e seus finais perfeitos, mas queria saber usar os óculos finos dos poetas e assim achar a beleza das coisas que doem tanto.

Alice não dança mais chamando a chuva, e foi por isso que os peixinhos dourados desaprenderam a nadar.

Quando morava dentro da barriga de outra mulher, Alice bebeu a água inteira do seu próprio mundo, e assim, chora de dentro do mais fundo que há, como se ainda não tivesse nascido.

 

 

Cristina Maria de Medeiros

Outubro de 2005



Escrito por Cristina às 02h01
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Simone nunca olhou pra trás ao se despedir.

E nos velórios

deu ao luto o peso exato

do respeito

Não mais que isso!

 

Em compensação chora muito

nas manhãs de domingo

enquanto passa manteiga no pão.

 

 

Cristina Maria de Medeiros,

21 de julho de 2005



Escrito por Cristina às 23h25
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Nº 01 :: ERROS
Primavera / Verão 2005 . 8€


José Eduardo Agualusa; Ana Pessoa;
Mário Rui de Oliveira;
Susana M. Marques; Jaime Rocha; Gonçalo M. Tavares; Eduardo Brandão; António Jorge Gonçalves;
Cristina Maria de Medeiros;
André Murraças; Ana Vicente;
Gabriel Magalhães;
João Tordo; Alexandra Lucas Coelho

http://www.basept.org/

http://www.ruadebaixo.com/conteudoArtigoNormal.php?idNoticia=857



Escrito por Cristina às 01h31
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   Fim de insônia

Na falta de cabelos para cortar
Ana tem dormido bem
e ficado bastante pragmática

Creio que em breve vai esquecer
porque guardou aquela entrada do cinema
de 17 de fevereiro de 1999.

Talvez Ana esqueça até mesmo,
porque se guardam as entradas de cinema.


Cristina Medeiros - 10 de julho de 2005

Escrito por Cristina às 15h51
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Ando em fase de pouca escrita. As palavras não me saem dos dedos. Aproveito para publicar este lindo poema escrito por meu tio e amigo Gerson Alvim Pessoa. Já havia publicado outro belíssimo poema dele sobre este tema. Contudo, o presente poema é, em minha opinião, ainda mais sensível e profundo.

Serra do Curral -  II

 Gerson Alvim  

Última muralha entrecortando horizontes

Serra de cercas e currais de reis

Vazando céus, entranhando terras

Mirando o vale de oblíqua tez.

 

Quisera tê-la, como era linda!

De minha infância

recordo-me quão

imponente muro

cerceando a vista

levava-me a sonhos improváveis,

talvez,

solidão.



Escrito por Fábio Morato de Castilho às 22h34
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   desengavetando...

De com aprendi a fazer crochê

 

Minha mãe dominava a técnica, mas não fazia crochê, pois sempre que começava uma peça  queria logo terminá-la. Vê-la inteira sobre a mesa: sonho descansado sobre uma realidade firme de madeira. E às vezes desculpava-se ao sono, à fome, e em transe penitente só nos retornava após terminada a obra.

Várias vezes pedi-lhe que me ensinasse os pontos, mas ela sempre me negou. Dizia não ter paciência, nem dons de professora. Mas a verdade é que queria me poupar. Ela, mais que ninguém conhecia o sofrimento que nasce num pequeno círculo de correntinha e cresce, já que a carreira seguinte é sempre maior que a anterior.

Então lhe fiz conversar com a vizinha. E dessa conversa estabeleceu-se um combinado. A vizinha me ensinaria os pontos sempre que pudesse. Eu então senti a alegria cabível nos meus nove anos, que com certeza era grande. Mas logo descobri que “sempre que pudesse” era um tempo curto demais pra minha impaciência de menina de menos de uma década. E comecei a sofrer!

“Sempre que pudesse” era um tempo que concorria com três filhos pequenos, marido, sogra, outros parentes... casa, papagaio, cachorro, encontro de mães na escola... casamento da cunhada e chá de berço da prima.

E vinha depois ainda de noites bem ou mal dormidas e da sesta de depois do almoço. Como eu sofria! E como me era caro o aprendizado! Mas não havia modo de retornar. Aceitei o sofrimento. E desde então amava a vizinha, tinha ciúmes dos filhos e do marido, sonhava tê-la só pra mim, com suas mãos ágeis e raríssimos olhos verdes.

Minha mãe me deu agulha e linha. Linha de cor escura, pra esconder minha falta de habilidade que fazia minhas mãos pequenas suarem.

E por falar em mãos, sempre que chegava, a vizinha me fazia lavá-las, mesmo que eu resistisse dizendo que estavam limpas.( É que os rituais precisam ser completos, não se pode pular nenhuma etapa.) E quando eu acabava de lavá-las deixava de ser criança. Era adulta e segurava entre os dedos toda a responsabilidade do mundo. E toda a responsabilidade do mundo era uma agulha de crochê número dois.

Certa feita, a vizinha me ensinava a fazer uma toalha composta de metades, que na última carreira da segunda metade se uniam.

Cheguei ao ponto de juntá-las já havia escurecido. E então, no meu peito de criança ficou de noite também. Uma angústia pesada se ria e me contava que só amanhã. Mas amanhã era outra vida, outro país, outras pessoas. E se não houvesse a tal da reencarnação?!?

Com olhos de fome botei a cara entre as grades do portão e implorei pela sapiência da vizinha. Saber é poder!  E a dona do poder se recusou a me dá-lo ali e agora. Não foi boa nem má pra mim. Apenas foi ela própria.

Voltei pra casa carregando a toalha partida e o mundo no peito. O mundo não me era leve!

Não sei como, mas sobrevivi. E no outro dia a vizinha me ensinou não apenas a unir as metades, o que já teria sido muito; mas ainda fizemos bambolins para enfeitar as duas pontas da toalha amarela.

Coloquei a toalha sob o filtro, na sala de visitas da casa de minha mãe. E sempre que as visitas tinham sede iam até o filtro e enquanto se saciavam podiam ver a peça de crochê. E eu me orgulhava.

Hoje adivinho alguns pontos ainda nos novelos de linha, mas não posso dizer que aprendi a fazer crochê. Talvez o crochê seja um aprendizado pra toda a vida. Talvez eu aprenda, talvez não. Fica aqui a história de como não aprendi a fazer crochê.

Talvez um dia...

 

 

Cristina Maria de Medeiros

               14 de dezembro de 2002

Escrito por Cristina às 01h52
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