desengavetando...
De com aprendi a fazer crochê
Minha mãe dominava a técnica, mas não fazia crochê, pois sempre que começava uma peça queria logo terminá-la. Vê-la inteira sobre a mesa: sonho descansado sobre uma realidade firme de madeira. E às vezes desculpava-se ao sono, à fome, e em transe penitente só nos retornava após terminada a obra.
Várias vezes pedi-lhe que me ensinasse os pontos, mas ela sempre me negou. Dizia não ter paciência, nem dons de professora. Mas a verdade é que queria me poupar. Ela, mais que ninguém conhecia o sofrimento que nasce num pequeno círculo de correntinha e cresce, já que a carreira seguinte é sempre maior que a anterior.
Então lhe fiz conversar com a vizinha. E dessa conversa estabeleceu-se um combinado. A vizinha me ensinaria os pontos sempre que pudesse. Eu então senti a alegria cabível nos meus nove anos, que com certeza era grande. Mas logo descobri que “sempre que pudesse” era um tempo curto demais pra minha impaciência de menina de menos de uma década. E comecei a sofrer!
“Sempre que pudesse” era um tempo que concorria com três filhos pequenos, marido, sogra, outros parentes... casa, papagaio, cachorro, encontro de mães na escola... casamento da cunhada e chá de berço da prima.
E vinha depois ainda de noites bem ou mal dormidas e da sesta de depois do almoço. Como eu sofria! E como me era caro o aprendizado! Mas não havia modo de retornar. Aceitei o sofrimento. E desde então amava a vizinha, tinha ciúmes dos filhos e do marido, sonhava tê-la só pra mim, com suas mãos ágeis e raríssimos olhos verdes.
Minha mãe me deu agulha e linha. Linha de cor escura, pra esconder minha falta de habilidade que fazia minhas mãos pequenas suarem.
E por falar em mãos, sempre que chegava, a vizinha me fazia lavá-las, mesmo que eu resistisse dizendo que estavam limpas.( É que os rituais precisam ser completos, não se pode pular nenhuma etapa.) E quando eu acabava de lavá-las deixava de ser criança. Era adulta e segurava entre os dedos toda a responsabilidade do mundo. E toda a responsabilidade do mundo era uma agulha de crochê número dois.
Certa feita, a vizinha me ensinava a fazer uma toalha composta de metades, que na última carreira da segunda metade se uniam.
Cheguei ao ponto de juntá-las já havia escurecido. E então, no meu peito de criança ficou de noite também. Uma angústia pesada se ria e me contava que só amanhã. Mas amanhã era outra vida, outro país, outras pessoas. E se não houvesse a tal da reencarnação?!?
Com olhos de fome botei a cara entre as grades do portão e implorei pela sapiência da vizinha. Saber é poder! E a dona do poder se recusou a me dá-lo ali e agora. Não foi boa nem má pra mim. Apenas foi ela própria.
Voltei pra casa carregando a toalha partida e o mundo no peito. O mundo não me era leve!
Não sei como, mas sobrevivi. E no outro dia a vizinha me ensinou não apenas a unir as metades, o que já teria sido muito; mas ainda fizemos bambolins para enfeitar as duas pontas da toalha amarela.
Coloquei a toalha sob o filtro, na sala de visitas da casa de minha mãe. E sempre que as visitas tinham sede iam até o filtro e enquanto se saciavam podiam ver a peça de crochê. E eu me orgulhava.
Hoje adivinho alguns pontos ainda nos novelos de linha, mas não posso dizer que aprendi a fazer crochê. Talvez o crochê seja um aprendizado pra toda a vida. Talvez eu aprenda, talvez não. Fica aqui a história de como não aprendi a fazer crochê.
Talvez um dia...
Cristina Maria de Medeiros 14 de dezembro de 2002
Escrito por Cristina às 01h52
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