A4 Mãos
  

        Angústia.

                   Fábio Morato de Castilho.

 

        Terminei a leitura de Angústia, de Graciliano Ramos. A cada página, desejava ter escrito esse livro. Livro de um sofrimento tão pesado, tão denso, cuja essência, embora venha do íntimo mais secreto de um indivíduo, é capaz de marcar todos os seus gestos e transparecer até em suas roupas e marcha. Desejava ter escrito esse livro, como quem precisa de um remédio ou de um ritual de cura. Enquanto lia, imaginava que escrever um livro como esse limpa e regenera a alma, como uma ferida que desaparece sem deixar cicatriz. Julgo ter quase todos os defeitos de Luís. Via-me em sua fraqueza, no desajustamento das roupas no corpo, nos fracassos.  Sonhava que escrever um livro assim enterraria certos fantasmas que me atormentam, e tornar-me-ia uma pessoa mais ereta ou de andar mais calmo. Aquelas páginas doíam-me como deve doer qualquer remédio bom, e isso me dava esperança. Quando estava quase a acreditar, vinha-me a imagem de Graciliano Ramos deitado em uma cama. Já para morrer, ele ainda conservava seu jeito rusguento e mal-humorado, sem aceitar falar com quase ninguém. Nunca vi essa imagem, mas a tenho comigo por relatos de amigos do escritor, e isso me basta. Sabia que nem a ele o livro havia salvado. E sabia do absurdo de minhas idéias, do quanto parecia loucura. Pensava na genialidade de Graciliano, capaz de escrever obra tão extraordinária! Pensava em sua vida nordestina e sofrida, tão fundamental quanto o talento. Está, em Angústia, boa parte de Memórias do Cárcere e Infância. Está, naquele livro, uma vida que eu não tenho e me é totalmente estranha. Mas, meus ossos não sabem disso e tremem! E a mente dilata-se e fecha-se ainda mais!

        Curar-se não é fácil e nem possível.

Escrito por Fábio Morato de Castilho às 23h05
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Fonte

 

Em dias assim quadrados

me pego apertando pétalas...

 

...de flores muito antigas

 

As lembranças secas

conservam pedaços de noite

e por isso ainda cheiram

 

Guardo também uma pedrinha

Que nunca morou num riacho

Uma pedrinha de beira de estrada

 

Eram duas,

mas a outra eu perdi...



Escrito por Cristina às 17h34
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Silêncio

 

Existe um nome

que não voltarei a pronunciar

Se o fizer...

Se minha língua ao menos

roçar os dentes

(na tentativa inútil de possuí-lo)

vão arrebentar-me as cordas

e o ar

que me vibra

 

Se quiser posso escrever o nome

pra em seguida

rapidamente

cortar os cabelos

e a ponta do mamilo

 

porque a mão vai secar




Escrito por Cristina às 22h54
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   para Alessandro Garcia, "que gostava dos meus contos"

 

Lar doce lar

 

Aqui em casa moramos quatro: Deus, eu, o Capeta e o rato. Deus mora no maior quarto. Na porta tem uma plaquinha dizendo: Não perturbe! E é isso mesmo que eu faço, nesse quarto eu nunca bato. E se batesse, nem mamãe, nem o padre perdoariam... (Diriam que é sacrilégio!)

Não sei quando Ele sai, quando volta, que bares freqüenta, como são Seus amigos. Se ri, se chora, se ama... Sei apenas da plaquinha: Do not disturbe!

Já o Capeta é um homem feio, cheiroso e bem arrumado. Tem a pele macia e a voz aveludada. O Capeta sabe de muitas coisas. Me fala dos castelos da Espanha, dos monges tibetanos e do poder da telepatia.

Toda noite ficamos os dois na sala. Bebendo vinho branco e ouvindo Elis.

De tempos em tempos cedemos ao vício, e aprontamos as cartas pro jogo.

O Capeta é cavalheiro, e por isso eu sempre começo: Faço uma pergunta. Se ele responde e me convence (certo ou errado não sabemos, talvez nunca saberemos, talvez mesmo não importe...)Se ele responde e me convence, tem direito a me fazer duas perguntas, e assim o número de dúvidas vai crescendo. O problema é que eu nunca encontro as respostas, e por isso acho que sempre perco.

Quando nos cansamos do jogo, o Capeta me conduz até o meu quarto (é que os corredores aqui em casa são longos, pouco iluminados, e eu tenho medo do escuro) Então ele me diz boa noite e vai dormir, mas não sem antes me dar um beijo na testa e desejar um sono tranqüilo  velado pelos anjos.

Quando ele sai eu rezo. Rezar é bom. É como contar carneirinhos...

Dá um soninho gostoso...

E eu durmo.

 

Algumas vezes me masturbo ( Sem ruídos, pra Deus não ouvir), depois eu durmo.

 

 

Esqueci de contar do Rato. Mas não se preocupe, é que o Rato está em todo lugar. É como a Bruxa...

 

O Rato está roendo você

Está roendo a folha.

O Rato roeu a roupa do tal rei de Roma.

O Rato roeu o próprio rei.

O Rato rói tudo.

 

Eta Ratinho safado!

 

Cristina Maria de Medeiros,

3 de Janeiro de 1999



Escrito por Cristina às 23h20
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   não é resenha

Negro lírico gato

 

No recém lançado livro de Renato Negrão, “Os dois primeiros e um vago lote”, encontrei de tudo um pouco. E quando digo isso quero tomar o cuidado de não imprimir ao meu comentário um tom de que se trata de uma mistureba inconseqüente. Quando digo que encontrei de tudo um pouco, quero dizer que encontrei musicalidade, forma, cor, volume, humor, lirismo, e mais.

Encontrei também coisas que não compreendo...  mas onde é que não esbarro com elas?!

Me encontrei e me perdi num pedaço de tempo que se existisse de verdade se chamaria instante...

Gosto e desgosto de me achar e me perder

Como gosto e desgosto das cores da capa. Que me dão angústia! “Dos mares   o maior”

 

Mas de tudo no mundo que me encanta,

tem lugar garantido certas delicadezas, acho que se chamam coisas líricas

 

Por isso publico aqui dois poeminhas do citado livro, queria publicar também um outro, de que gostei muito, mas me faltam recursos gráficos e sei da importância deles na obra.

 

Por último, quero deixar anotado que Renato tem líricos olhos de negro gato.

 



Escrito por Cristina às 00h26
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fora

 

folhas

vento

 

dentro

 

falhas

tempo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

a gaiola

 

era do homem

 

o menino

 

a abriu

 

passarinho

 

fugiu

 

a gaiola

 

voou

 

 

 

do livro “Os dois primeiros e um vago lote”, espécie de lançamento e relançamento do escritor Renato Negrão



Escrito por Cristina às 00h26
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A Cristina assumiu a edição do jornal literário Cartas de Pasárgada. Esse jornal é feito pelos estudantes de Medicina da UFMG e já existe há 6 anos. Até então, era editado por seu idealizador, Fabiano Novais. Darei, com grande alegria, minha parca contribuição a esse projeto em seu novo número. Tenho um grande carinho pela idéia e tenho certeza que ficará muito legal! Interessados devem enviar texto literário de autoria própria, em prosa ou verso, para o e-mail: cartas_pasargada@yahoo.com.br , até o dia 30 de novembro.

Em tempo, gosto muito do nome do jornal. O poema Vou-me Embora pra Pasárgada de Manuel Bandeira é para mim algo extraordinário! Embora Cecília Meireles tenha dito, em um poema maravilhoso, que “As aves trazem mentiras / de países sem sofrimento. / Por mais que / alargue as pupilas, /mais minha dúvida aumento.”, devo confessar que a idéia de Pasárgada continua iludindo-me.



Escrito por Fábio Morato de Castilho às 23h24
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Negociação.

            Fábio Morato de Castilho.

 

Na noite, tudo é amor.

E parece vir das ruas

Uma esperança que reconciliará o mundo.

Entretanto, tenho um calo no peito,

Que dói mais que protege.

 

Dou nele um leve tapa no ombro -

Coisa de amigo

Ou de quem quer criar amizade -,

Mas ele está sério

E não ri.



Escrito por Fábio Morato de Castilho às 13h15
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